O filho do ministro Gilmar Mendes, do STF, Francisco Mendes, não herdará apenas a fortuna que o pai adquiriu ao longo das décadas. Ao que tudo indica, herdará também um dos cargos mais desejados do país do futebol: a presidência da CBF.
A influência de Gilmar na instituição nos últimos anos é inegável e começou a ser questionada. Embora o ministro negue qualquer conflito de interesses, a CBF Academy, braço educacional da entidade, foi criada em parceria com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), da família Mendes, onde Francisco Mendes é diretor-geral. Segundo informações divulgadas, o IDP fica com 84% das receitas do projeto. Tudo normal até aqui? Para Gilmar, sim.
Divulgação – Sede do IDP em Brasília
A crise que abalou a Confederação Brasileira de Futebol voltou a colocar o ministro Gilmar Mendes no centro das atenções. Foi uma decisão liminar do ministro, em janeiro de 2024, que reconduziu Ednaldo Rodrigues à presidência da CBF, revertendo o afastamento determinado pela Justiça do Rio de Janeiro. Mais tarde, porém, Ednaldo acabou novamente deixando o comando da entidade após novos desdobramentos judiciais.
Enquanto isso, outro nome passou a ganhar força nos bastidores: Francisco Mendes, filho de Gilmar Mendes. Embora não ocupe um cargo na diretoria da CBF, atualmente presidida por Xaud, Francisco é vice-presidente da Federação Mato-Grossense de Futebol, integra um comitê disciplinar da FIFA e, segundo reportagens recentes, tornou-se um dos principais articuladores políticos da entidade. Dirigentes e veículos da imprensa o apontam como uma figura de grande influência nas decisões internas da confederação.
Na percepção de quem acompanha o futebol, cresce a impressão de que a disputa pelo controle da CBF vai muito além de quem ocupa oficialmente a presidência da entidade. O verdadeiro centro de poder estaria nas articulações políticas e jurídicas que cercam a entidade — um cenário que mantém Gilmar Mendes e seu filho Francisco entre os personagens mais influentes dessa disputa.
A segunda maior fonte de receita da CBF é o patrocínio, que representa cerca de 37% do faturamento, ficando atrás apenas dos direitos de transmissão, responsáveis por aproximadamente 53% das receitas. Segundo dados divulgados pela própria entidade, o orçamento aprovado para 2026 projeta uma receita entre R$ 2,7 bilhões e R$ 3 bilhões.
Como os patrocinadores são fundamentais para a saúde financeira da CBF, eventuais interesses dessas empresas em processos judiciais podem levantar questionamentos, como ocorreu no caso de Ednaldo Rodrigues. Na ocasião, surgiram acusações de que a assinatura em um documento que validou sua permanência no comando da entidade teria sido falsificada. Após ser afastado, Ednaldo retornou à presidência por decisão do ministro Gilmar Mendes, como já citado anteriormente, desfecho que gerou questionamentos e ampla repercussão.
Seria essa a principal forma de influência do ministro sobre uma instituição privada como a Confederação Brasileira de Futebol?
Se observarmos as últimas manifestações de Gilmar em seu perfil oficial no X, constataremos que ele demonstra grande interesse pelo mundo do futebol e parece ter adotado, em definitivo, uma segunda profissão: a de comentarista esportivo. Embora não seja remunerado por isso, dá pitacos, faz previsões, presta homenagens e, em clima de Copa do Mundo, comentou até mesmo a eliminação da seleção de Portugal, país onde o próprio Gilmar já declarou possuir recursos aplicados e no qual costuma passar parte de suas férias.
É também em Portugal que ele promove o evento que ficou conhecido como “Gilmarpalooza”, um convescote que reúne operadores do Direito, autoridades, políticos e, o mais importante, superempresários.
Mas qual é a relevância dos comentários de Gilmar sobre a seleção brasileira? Ele pode apreciar o esporte, mas, tratando-se de um ministro da Suprema Corte que eventualmente poderá julgar processos envolvendo a CBF, seus patrocinadores ou até mesmo atletas, o mais prudente seria manter a discrição.
Se deseja ser comentarista, palpiteiro, político ou empresário, que deixe a toga e siga esse caminho.
Gilmar demonstra vaidade e uma necessidade permanente de se envolver em tudo o que acontece no país. Não faz questão de esconder isso nem parece se preocupar com o que pensarão. Vive concedendo entrevistas, falando fora dos autos, criticando decisões de colegas do STF em público, antecipando votos e tenta barrar investigações relevantes, como o caso Master, que envolve dois ministros considerados seus aliados na Corte: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
Veja o acinte de uma das declarações publicadas por Gilmar em uma postagem recente no x:
“Encerrada nossa participação na Copa de 2026, fica a gratidão. Uma Copa do Mundo se constrói ao longo de anos, com disciplina e a enorme responsabilidade de todos que vestem a camisa verde e amarela. Agora, rumo a 2030, começa um novo ciclo.”
Gilmar e o filho Francisco – Reprodução/STF e CBF.
Estaria o togado sugerindo, nas entrelinhas, que seu filho seria o nome mais indicado para assumir a CBF nos próximos anos, por ser dotado de responsabilidade e disciplina? A frase “rumo a 2030, começa um novo ciclo” abriu espaço para que internautas alimentassem rumores de que Gilmar já conheceria o destino reservado ao filho: assumir o controle da CBF.
Mas por que isso seria tão importante para Gilmar e para sua família?
Vale lembrar que a família Mendes, originária do município de Diamantino, em Mato Grosso, é proprietária de diversas fazendas na região, administradas pela empresa GMF Agropecuária Ltda., voltada ao cultivo de soja, milho e à criação de gado.
Entre os sócios da empresa está o irmão do ministro, Francisco Ferreira Mendes Júnior, atual prefeito de Diamantino, além de outros familiares. A família também fornece gado para grandes empresas do setor frigorífico, entre elas a JBS, dos irmãos Batista — os mesmos que tiveram suspensa, por decisão do ministro Dias Toffoli, a multa de mais de R$ 10 bilhões prevista em seu acordo de leniência, em 2023.
Que tabelinha perfeita nesse time do STF, hein? “Viva a democracia.” “Viva a soberania.”
Contudo, Gilmar Mendes também exerce forte influência na política nacional. O atual decano do STF foi flagrado, em uma ligação interceptada pela Polícia Federal, em 2017, discutindo articulações por votos no Senado.
O áudio revela o então senador Aécio Neves (PSDB) pedindo ajuda ao ministro para convencer o senador Flexa Ribeiro a votar favoravelmente ao projeto de lei que endurecia as regras sobre abuso de autoridade. Gilmar concorda em telefonar para o parlamentar e afirma que utilizaria como argumento o fato de o texto final ser um substitutivo apresentado pelo senador Roberto Requião.
Ministro do STF interferindo em outro Poder? Ah, sim… é a tal da harmonia entre os Poderes prevista na pobrezinha da Constituição, que já não suporta mais ser tão surrada e maltratada.
As conexões do ministro com decisões políticas relevantes sobre os rumos do país, na visão de seus críticos, ultrapassam o razoável. Não por acaso, ele acumula dez pedidos de impeachment parados no Senado Federal.
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O próprio Gilmar chegou a decidir, de forma monocrática, uma mudança na interpretação das regras sobre o processamento de pedidos de impedimento de ministros do STF, em decisão relacionada à legitimidade para provocar a atuação do procurador-geral da República. Para muitos, isso representa retirar do cidadão um instrumento de controle institucional e concentrar ainda mais poder.
O atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi sócio de Gilmar Mendes no IDP. E é justamente aqui que “a cobra encontra o rabo”: o ciclo se fecha em torno de uma rede de influência, poder e proteção.
Nada parece atingi-lo. Absolutamente nada. Mas o que ainda falta para o megalomaníaco da capa preta?
Ter, dentro da própria família, o herdeiro na presidência da CBF, uma instituição que movimenta bilhões de reais, mantém parcerias com algumas das maiores empresas do Brasil e influencia os rumos do esporte mais popular do país. Gilmar parece desejar ter o controle total da política, do Judiciário e do empresariado brasileiro.
Rodolfo Aiello (MTB 97.613-SP) é jornalista, fundador e colunista do NARRAPODER. Acumula sólida experiência na cobertura e na área governamental. É Doutor Honoris Causa pela Academia de Letras do Brasil (ALB-SP) e cursou Marketing pela FAE Centro Universitário (Curitiba).