Com Lula à frente nas pesquisas contra Flávio Bolsonaro, mas um eleitorado temeroso de ambos os polos, o PL consolida poder no Congresso, o centrão negocia sua eterna sobrevivência e o PSDB tenta um renascimento tardio. Enquanto as convenções se aproximam, uma nação refém de seus fantasmas projeta suas esperanças e seus medos sobre o mesmo palco gasto.
Enquanto o espetáculo político brasileiro segue seu ritual cíclico de alianças e rupturas, é impossível não perceber as velhas sombras junguianas que se projetam sobre o tabuleiro nacional. A repetição compulsiva de narrativas de salvação e de traição, o desejo inconsciente de um pai forte ou de um provedor onipotente, a projeção da sombra coletiva no “outro” — tudo isso pulsa sob a superfície das pesquisas e das reuniões de cúpula. Escrevo não como militante de qualquer lado, mas como observador que busca, com o rigor de quem analisa fatos e com a sensibilidade de quem intui as forças mais profundas da psique social, mapear o estado atual dos partidos brasileiros às vésperas das convenções de julho e agosto de 2026.

As pesquisas mais recentes confirmam uma liderança estável, porém não folgada, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o AtlasIntel de final de junho, Lula aparece com 46,3% das intenções de voto contra 36,6% de Flávio no primeiro turno; no segundo turno, a vantagem vai a 48,8% a 42,3%. A Quaest/Genial, divulgada em 10 de junho, apontou 39% a 29% no primeiro turno e 44% a 38% no segundo. Outros levantamentos, como Datafolha e PoderData, reforçam a mesma tendência: Lula à frente, com margem que oscila entre confortável e técnica, dependendo do cenário e do instituto.
O que mais chama atenção, contudo, não é apenas a vantagem numérica do petista — ancorada na máquina governamental, em bases regionais consolidadas no Norte e Nordeste e na narrativa de inclusão social —, mas o persistente “voto negativo”. Uma parcela relevante do eleitorado declara temer mais a vitória de um lado do que torcer genuinamente pela do outro. É o sintoma clínico de uma polarização que se transformou em estrutura de sentimento: o país parece condenado a escolher entre dois medos em vez de dois projetos.
A genealogia do tabuleiro atual

Desde a redemocratização, os partidos brasileiros percorreram trajetórias marcadas por ascensões meteóricas, hegemonias frágeis e declínios estruturais. O PT, nascido das lutas operárias e da teologia da libertação, chegou ao poder em 2003 e o manteve por mais de uma década com políticas que reduziram pobreza extrema e ampliaram acesso ao ensino sup
erior e ao crédito. Escândalos de corrupção, no entanto, corroeram parte da confiança e abriram espaço para a narrativa de “sistema”. O PSDB, que nos anos 1990 representou o centro reformista e a modernização estatal, vive hoje uma existência residual: federação com o Cidadania, bancada federal modesta e ganhos limitados na janela partidária de março de 2026. O PL, por sua vez, foi capturado pelo bolsonarismo e transformou-se na principal força de oposição e na maior bancada da Câmara dos Deputados após a janela, atraindo desiludidos do União Brasil e chegando a cerca de 98–105 cadeiras. O centrão — MDB, PP, Republicanos, PSD e remanescentes do União — permanece o fiel da balança: pragmático, fisiológico e indispensável.
A janela partidária de março de 2026 funcionou como radiografia impiedosa do sistema. Quase um quarto dos deputados federais trocou de legenda. O PL foi o grande vencedor, recuperando tamanho perdido; o União Brasil despencou; o PSDB ganhou algum fôlego, mas longe de recuperar relevância nacional. O movimento revelou a fragilidade ideológica de boa parte das legendas: mais clubes de interesses e acesso a recursos do que comunidades de princípios.
Atitudes recentes, reuniões e o impacto dos eventos

Nas últimas semanas, Lula intensificou agendas de inaugurações de obras e anúncios de programas sociais e de segurança pública, buscando extrair o máximo de visibilidade institucional antes do prazo legal para propaganda eleitoral. O PT, em resolução de início de julho, reafirmou a reeleição do presidente como “tarefa estratégica para consolidar projeto de nação soberana”. Do outro lado, o PL realizou reuniões internas com advogados de Jair Bolsonaro (inelegível até 2030) para definir estratégias “racionais” para 2026. O escândalo do áudio “Dark Horse” — envolvendo Flávio Bolsonaro e transferências milionárias para uma biografia do pai — parece ter custado pontos ao senador, permitindo a Lula ampliar vantagem após meses de empate técnico.
No centrão, as articulações são discretas, mas constantes. Lula tem cortejado PP e Republicanos, buscando neutralidade ou apoio em troca de sustentação legislativa e, eventualmente, um vice de perfil moderado. O MDB, eterno rei das alianças, é novamente objeto de disputa. Todos sabem: sem o centrão, não se governa de forma estável nem se obstrui de maneira duradoura.
Posicionamento e contradições de cada força

O PT aposta na consolidação de um campo amplo —federações com PV, PCdoB, PSOL-REDE e PDT, além do PSB de Geraldo Alckmin como vice. Sua força reside na capacidade de mobilização popular e na narrativa de defesa de direitos contra o retrocesso. Críticos, no entanto, apontam para a dificuldade de renovação geracional, para uma economia que ainda carrega cicatrizes e para a persistência de práticas clientelistas em algumas bases.
O PL conta com base leal, disciplinada e territorialmente forte. Flávio Bolsonaro herda o carisma familiar e o discurso de ordem e família, mas carrega o peso de processos judiciais e da imagem de continuidade de um projeto que divide o país ao meio. A força legislativa do partido — maior bancada — dá-lhe poder de barganha e obstrução, mas também o expõe a críticas de pragmatismo excessivo quando vota com o governo em pautas de interesse setorial.
O PSDB debate-se entre a irrelevância nacional e tentativas locais de sobrevivência. Em São Paulo, onde o partido tem história, há movimentos de reposicionamento, mas o eleitorado parece ter migrado para polos mais definidos ou para o pragmatismo do centrão. O partido que um dia disputou a Presidência com chances reais hoje luta para não desaparecer do mapa.
O centrão, bloco amorfo e resiliente, representa a face mais cínica — ou mais realista — da política brasileira. Sem projeto de nação claro, negocia pedaço por pedaço: verbas, cargos, emendas. Lula os corteja para isolar o PL; o PL os teme e os atrai com promessas de poder futuro. No fundo, ambos os lados reconhecem a mesma verdade: o poder no Brasil ainda passa pelo “fisiologismo” de sempre.
A dimensão psicanalítica da repetição
Do ponto de vista psicanalítico, o que vivemos é sintoma de uma sociedade que não elaborou seus traumas fundantes: a desigualdade abissal, a corrupção sistêmica, a violência estatal e paraestatal, a frustração repetida de expectativas democráticas. Lula e Flávio Bolsonaro funcionam como significantes-mestres: um encarna a inclusão histórica dos excluídos e a redenção; o outro, a ordem, a família tradicional e a revolta contra elites. Ambos são idealizados e demonizados simultaneamente. O eleitor que “tem medo de ambos” revela a clivagem interna da nação: a parte que anseia por proteção e a parte que teme o autoritarismo ou o clientelismo exacerbado. É a sombra coletiva projetada no espelho rachado da República.
O sarcasmo da história é cruel: após décadas de alternância entre PT e PSDB, e a irrupção bolsonarista, o sistema parece condenado a escolher entre variações de si mesmo. O “novo” raramente surge; o velho se recicla com nova embalagem e novo slogan.
Às vésperas das convenções
Entre 20 de julho e 5 de agosto, os partidos oficializarão candidatos e coligações. O Brasil se encontra diante de um espelho incômodo. As pesquisas mostram um favorito, mas não um consenso. A máquina do PT funciona, a base do PL resiste, o centrão c
alcula. Falta, talvez, o que a psicanálise chamaria de “trabalho de luto”: a capacidade coletiva de reconhecer que nenhum salvador único — nem o eterno pai provedor, nem o pai protetor forte — substitui a construção madura de instituições sólidas, de um centro político
autêntico e de uma cultura cívica que transcenda o tribalismo.
A nação que não consegue elaborar suas sombras está condenada a projetá-las eternamente sobre seus líderes. Que 2026, independentemente do resultado das urnas, seja ao menos o início de uma reflexão mais profunda sobre quem realmente somos quando o espetáculo termina e as luzes se apagam.
Por Luciano Petricelli – L'(Max)
Jornalista – Registro Profissional nº 0096621/SP Colaborador do Portal NARRAPODER



