“Se ele precisar de escudo, sou escudeiro dele no que for preciso. (…) Se eu tiver a ferramenta que ele não tem, vou pôr na mão dele.”
A frase, dita por Pablo Marçal em abril de 2026, quando ainda se apresentava como apoio explícito a Flávio Bolsonaro, ganhou nova ressonância no sábado 15 de agosto. Às 18h51, nove minutos antes do fechamento do prazo do Tribunal Superior Eleitoral, o PRTB protocolou a candidatura do empresário e influenciador à Presidência da República, com Leonardo Avalanche como vice na chapa isolada “Brasil Próspero”. A filiação partidária que tornava o registro possível só existia por força de uma liminar de primeira instância, com efeitos retroativos a 4 de abril. A inelegibilidade decretada pelo TRE-SP — válida até 2032 — permanecia intacta.
O movimento não nasceu do nada. Ele é a continuação de uma trajetória que, em 2024, quase tirou a direita paulistana do eixo.
O método que quase chegou ao segundo turno
Em 2024, Pablo Marçal disputou a Prefeitura de São Paulo pelo PRTB. Terminou em terceiro lugar, com 28,14% dos votos válidos — mais de 1,7 milhão de eleitores. Sua campanha se construiu sobre um aparato digital agressivo: o chamado “campeonato de cortes”, em que produtores de conteúdo eram incentivados com prêmios em dinheiro a viralizar trechos de seus vídeos. A Justiça Eleitoral classificou a prática como uso indevido dos meios de comunicação social, abuso de poder econômico e captação ilícita de recursos. Em dezembro de 2025 o TRE-SP manteve a condenação; em 5 de agosto de 2026 rejeitou, por unanimidade, os embargos de declaração. A inelegibilidade ficou confirmada até 2032. Recursos seguem no TSE.
O mesmo método que o tornou inelegível foi o que o tornou incontornável. Marçal operou nas redes com uma lógica de atenção total: polarização constante, linguagem direta, apelo a empreendedorismo, fé e revolta contra o “sistema”. Em São Paulo, incomodou a esquerda de forma tradicional — forçando Guilherme Boulos e Ricardo Nunes a reagirem a uma narrativa que não controlavam. O custo jurídico foi alto. O capital político, no entanto, sobreviveu.
A aproximação com Flávio e a mudança de papel
Em dezembro de 2025, Marçal subiu ao palco com Flávio Bolsonaro em um evento em Barueri e declarou: “Não querendo magoar o Jair, mas esse é o Bolsonaro que a gente sempre sonhou.” Prometeu ir “para a guerra juntos”. Em abril de 2026, reforçou a metáfora do escudo. Flávio, por sua vez, chegou a dizer que recebia “dicas de campanha” do influenciador. Havia, naquele momento, uma leitura estratégica de parte do entorno bolsonarista: Marçal poderia entregar alcance digital e penetração em periferias que o senador precisava.
No dia 15 de agosto de 2026, o escudeiro se tornou candidato. Na primeira entrevista após o registro, ao Brasil Paralelo, Marçal afirmou que a primeira pessoa a quem ligou foi Flávio. A mensagem, segundo ele, foi direta: “Segue seu caminho em paz, que você não vai ter problema comigo.” Completou publicamente que “não vai criar problemas” para a candidatura do PL e que a preocupação de que “o Marçal vai vir e pôr pra derreter” era infundada. Seu alvo declarado, disse, é impedir que Lula vença no primeiro turno. A disputa real, na sua leitura, se resume a três nomes: ele, Flávio e Lula. Os demais — Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema — foram tratados como obstáculos a serem diluídos.

O registro, a liminar e o patrimônio
A candidatura só foi protocolada porque um juiz eleitoral de Santana de Parnaíba concedeu liminar permitindo a saída do União Brasil e a refiliação ao PRTB com data retroativa. A decisão é provisória. O TSE tem até meados de setembro para julgar o registro. Enquanto pendente, Marçal está autorizado a fazer campanha, arrecadar e impulsionar conteúdo digital, mas sem garantia de tempo de televisão ou presença obrigatória em debates. A candidatura é sub judice.
Na declaração de bens apresentada ao TSE, o valor inicial saltou para R$ 7,418 bilhões — a maior parte em uma aplicação de renda fixa. O número gerou reações imediatas. Dias depois, Marçal e a campanha alegaram “erro de digitação” e corrigiram o patrimônio para cerca de R$ 149,9 milhões. A correção foi protocolada. O episódio alimentou tanto o engajamento quanto o ceticismo.
As reações e o tabuleiro da direita
Renan Santos, candidato do Missão, foi o primeiro a interpretar o movimento de forma explícita: a entrada de Marçal “é para beneficiar Flávio Bolsonaro”. Segundo ele, o influenciador havia atuado como consultor de marketing do senador e a “bagunça” esperada favoreceria o PL. Marçal rebateu, acusando Renan de candidatura para “devolver favores”.
Nas redes e em parte do campo bolsonarista, a leitura dominante é outra: risco de divisão de votos. Posts e análises alertam que a base digital e periférica de Marçal se sobrepõe à de Flávio e que a presença de um outsider polarizador pode desidratar o principal nome da direita institucional. Outros veem na operação uma tentativa de “zerar a terceira via” e forçar a polarização clássica Lula versus Bolsonaro, exatamente o cenário que o PT, segundo a leitura de Marçal, gostaria de evitar.
O método permanece o mesmo de 2024: ocupar o espaço da atenção, forçar reações, transformar a campanha em espetáculo digital contínuo. Em São Paulo, esse método incomodou a esquerda porque deslocou o eixo do debate. Em escala nacional, o mesmo método agora opera dentro do campo da direita, com efeitos ainda incalculáveis.
O que o leitor precisa observar
Pablo Marçal chegou à disputa presidencial de 2026 carregando três legados simultâneos: o capital de atenção construído nas redes, a condenação que o tornou inelegível e a relação ambígua com o principal nome da direita bolsonarista. Ele se apresenta como quem não criará problemas para Flávio e, ao mesmo tempo, como o “Capitão América que chegou com o escudo”. Declara que o objetivo é impedir a vitória de Lula no primeiro turno. A estrutura jurídica da candidatura é frágil. O potencial de engajamento digital, histórico.
O caminho até aqui é conhecido. O que ele produzirá no tabuleiro nacional — se realmente diluirá rivais de terceira via, se transferirá ou dividirá votos, se forçará o segundo turno ou se será barrado pelo TSE — ainda está em aberto. Os fatos estão postos. As intenções declaradas, também. A análise do conjunto, daqui para frente, pertence a cada um.
Luciano Petricelli Jornalista – Registro 0096621/SP Portal NARRAPODER



