Hoje, 13 de agosto de 2026. Faltam exatamente 52 dias para o primeiro turno das eleições gerais. O Brasil, como sempre, caminha sobre uma linha tênue entre o desejo de continuidade e a pulsão de ruptura. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta o quarto mandato ainda na frente, mas carrega o desgaste visível de quem está no poder. O senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair, aproveita a erosão do adversário e fecha o espaço. No meio do caminho, a inteligência artificial já chegou ao plenário do Tribunal Superior Eleitoral como ator político.
Escrevo como quem observa o espetáculo sem torcer para nenhum dos lados do ringue. Não tenho políticos de bolso. O que interessa aqui é o jogo de poder, as sombras coletivas e as contradições que a psique brasileira insiste em repetir a cada ciclo eleitoral.
O termômetro das pesquisas: Lula ainda na frente, mas o desgaste é real

As últimas sondagens de agosto desenham um cenário claro: Lula segue à frente no primeiro turno, porém a vantagem vem encolhendo de forma consistente. O eleitorado que antes sustentava o petista com margem confortável agora mostra sinais de cansaço.
A Quaest/Genial, de 5 de agosto, colocou Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 30%. Diferença de nove pontos — era 12 em julho. No segundo turno, 44% a 39%. A direita não bolsonarista voltou a considerar o filho do ex-presidente.
A BTG/Nexus, de 7 a 9 de agosto, mostrou Lula com 40% e Flávio com 35%. No segundo turno, 47% a 44%. Quase dentro da margem.
A PoderData, a mais recente (9 a 12 de agosto), aponta Lula com 41% e Flávio com 35% no primeiro turno. No segundo turno, 46% a 45% — empate técnico. A rejeição de ambos está empatada em 48%.
A CNT/MDA ainda dá margem maior a Lula (42,4% a 28,7% no primeiro; 48% a 39,1% no segundo). Há variação entre os institutos, mas a tendência é a mesma: Lula ainda lidera, porém perde eleitores mês a mês, enquanto Flávio recupera terreno de forma constante.
Lula, por sua vez, carrega o desgaste natural de quem está no poder: economia que não convence a parcela mais vulnerável, segurança pública que permanece no centro das reclamações e, principalmente, a percepção de que o país “vai na direção errada”. Nas pesquisas, a maioria dos entrevistados ainda avalia negativamente o rumo do Brasil — mesmo quando declara voto no petista. É o clássico “voto contra o outro”, não necessariamente “voto a favor”. O eleitor não se apaixona pela gestão; ele apenas rejeita o adversário com mais força. Essa é a fragilidade estrutural de quem governa em tempos de polarização: o capital político se consome mais rápido do que se renova.
Os nomes que já estão na pista

As convenções partidárias terminaram em 5 de agosto. O prazo final para registro de candidaturas no TSE e nos TREs é amanhã, 15 de agosto. No domingo, 16, começa oficialmente a propaganda eleitoral nas ruas e na internet.
Lula oficializou a chapa com Geraldo Alckmin. Flávio Bolsonaro foi lançado pelo PL. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) completam o quadro principal. Há ainda candidaturas menores, mas o jogo real é bipolar.
Nos estados, a disputa é igualmente acirrada. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad já nacionalizaram o embate. No Rio, Paes lidera. Em Minas, o tabuleiro ainda se move.
A guerra da inteligência artificial chegou ao TSE

Hoje mesmo, os ministros do Tribunal Superior Eleitoral se reúnem para discutir o alcance da proibição de deepfakes. O estopim foi o vídeo gerado por inteligência artificial de Jair Bolsonaro, exibido na convenção do PL que confirmou Flávio. O PT protocolou representação. A defesa de Flávio argumenta que o conteúdo era identificado como simulação. O TSE, porém, tende a endurecer a regra: proibição ampla, independentemente de intenção ou aviso.
Não se trata apenas de um vídeo. Trata-se do precedente. A eleição de 2026 será a primeira realmente disputada sob a era da inteligência artificial generativa. E a Justiça Eleitoral, tradicionalmente lenta, agora corre contra o tempo da tecnologia.
Há um dado psicanalítico interessante aqui. O deepfake não inventa apenas imagens. Ele inventa a possibilidade de que o pai morto (ou preso) continue falando. O desejo de presença eterna. O filho que não consegue se descolar do nome do pai. O eleitor que prefere a fantasia à realidade. Freud chamaria de retorno do recalcado. Jung, de possessão pelo arquétipo.
O que realmente está em jogo
Mais do que nomes, o que está em disputa é a narrativa de quem o Brasil pensa ser. De um lado, a continuidade de um projeto político que se apresenta como redistributivo e institucionalista — mas que já sente o peso do tempo no poder. Do outro, a reorganização de uma direita que, depois de 2022, ainda tenta decidir se será herdeira ou superação do bolsonarismo.
O eleitor, no fundo, não vota apenas em programas. Vota em identificações. Em fantasias de proteção. Em ódios acumulados. Em esperanças projetadas. E, cada vez mais, em rejeição.
A campanha oficial começa em três dias. O horário eleitoral gratuito, em 28 de agosto. O primeiro turno, em 4 de outubro. O segundo, se houver, em 25 de outubro.
Entre agora e lá, muita coisa ainda pode acontecer. Inclusive a confirmação de que, neste país, a política nunca é apenas política. É sempre, também, um drama familiar, uma disputa de herança simbólica e um teatro de sombras onde o poder se disfarça de salvação — e o desgaste, de fatalidade.
Como diria Lacan, o sujeito é sempre o que falta. E o Brasil, a cada quatro anos, vai às urnas em busca daquilo que acredita ter perdido — ou que nunca teve.
Luciano Petricelli Jornalista – Registro 0096621/SP Portal NARRAPODER



