Enquanto o Irã inicia uma semana de luto nacional pelo falecimento do Aiatolá Ali Khamenei — morto em meio ao conflito com Israel e os EUA —, o mundo assiste a um ritual coletivo que transcende o mero adeus. Milhares se aglomeram em Teerã para as cerimônias fúnebres, com o corpo em estado no Grand Mosalla, seguido de procissões que atravessarão o país e possivelmente o Iraque. Fontes como AP, Reuters, BBC, CNBC e G1 confirmam o evento como o principal foco das últimas 24 horas na geopolítica global.
Não se trata apenas de um líder religioso e político partindo. Khamenei personificou, por décadas, a síntese tensa entre teocracia e pragmatismo de poder no Irã pós-revolucionário. Sua morte ocorre num momento de fragilidade: tréguas instáveis com os EUA, tensões com Israel, e um vácuo que inevitavelmente abrirá disputas sucessórias. Generais emergem das sombras, como Ahmad Vahidi, e o establishment iraniano prepara o terreno para uma transição que, sob a superfície de unidade nacional, revela as fissuras típicas de regimes autoritários — onde o luto público mascara a luta interna pelo controle da narrativa e das instituições.
Como jornalista imparcial, observo com ceticismo saudável tanto as narrativas oficiais de Teerã (que pintam o evento como prova de resiliência popular) quanto as leituras ocidentais mais triunfalistas (que veem nisso o início do colapso do regime). A realidade, como sempre, é mais nuançada: o Irã sobreviveu a sanções, isolamentos e guerras por proxy não por fraqueza ideológica, mas por uma capacidade adaptativa de sublimação do desejo de poder em formas espirituais e nacionalistas. Freud diria que o luto coletivo canaliza pulsões destrutivas; Jung, que arquétipos do Pai Eterno são projetados sobre o líder para manter a coesão do Self coletivo. Khamenei, como Khomeini antes dele, foi essa figura paterna autoritária — protetor e opressor ao mesmo tempo.
O timing não poderia ser mais simbólico. Enquanto o Irã enterra seu guia supremo, os Estados Unidos celebram os 250 anos de independência com discursos de Donald Trump em Mount Rushmore e no National Mall. Trump, em tom excepcionalmente político, exaltou o “golden age” americano, alertou contra o “câncer” do comunismo e posicionou-se como guardião da liberdade contra ameaças existenciais — ecoando, ironicamente, retóricas que outrora serviram para justificar intervenções no Oriente Médio. Tempestades e evacuações no Mall adicionaram um toque dramático ao espetáculo, como se a natureza mesma ironizasse o controle humano sobre o destino.
Aqui, a veia psicanalítica se impõe: o medo da morte (individual e civilizacional) impulsiona esses rituais grandiosos. No Irã, o funeral monumentaliza o líder para negar sua finitude; nos EUA, o bicentenário e meio serve para reafirmar uma identidade nacional sob ameaça percebida. Ambos os lados projetam sombras — o “outro” comunista, imperialista ou teocrático — para sustentar o ego coletivo. Reich falaria em armadura caracterológica; Lacan, no desejo insatisfeito que estrutura o poder.
E o Brasil nisso tudo? Indiretamente, mas não irrelevante. Nossa diplomacia histórica de equilíbrio (Sul Global, BRICS, relações pragmáticas com Irã e Ocidente) será testada. Um Irã instável afeta preços de petróleo, rotas comerciais e dinâmicas de poder no Oriente Médio, com reflexos em nossa economia dependente de commodities. Internamente, o luto iraniano e o show americano servem de espelho para nossas próprias contradições: um país que oscila entre desejo de soberania e medo da irrelevância global, entre narrativas de progresso e sombras autoritárias latentes. Flávio Bolsonaro em viagem aos EUA e tensões eleitorais 2026 lembram que, também aqui, o espetáculo político usa datas simbólicas para mobilizar afetos.
O sarcasmo elegante surge inevitável: enquanto líderes se eternizam em funerais ou fogos de artifício, o cidadão comum — brasileiro, iraniano ou americano — enfrenta inflação, insegurança e a banalidade do dia a dia. O poder, em sua essência, sublima o medo da morte coletiva numa ilusão de imortalidade institucional. Mas, como nos ensina a história, pedras tumulares e monumentos nacionais desmoronam; o que permanece é a dialética freudiana entre Eros (união, celebração) e Tânatos (destruição, conflito).
Em última análise, o funeral de Khamenei nos convida a uma reflexão lacaniana: o Real irrompe na morte do Grande Outro, revelando que nenhum regime, por mais teocrático ou democrático que se proclame, escapa à falta estrutural. O desafio, para o Irã, para os EUA e para nós, é transformar esse vazio em oportunidade — não de vingança ou dominação, mas de uma política mais humana, consciente de suas sombras. Enquanto o espetáculo segue, a pedra bruta da existência coletiva aguarda o cinzel da razão e da compaixão. Que a luz da vela, como em meus versos, ilumine mais do que o ritual.
Assinado: Luciano Petricelli — Portal NARRAPODER.



